Cabe num livro?

Há poucos dias, veio a notícia de que uma decisão judicial havia declarado que a Umbanda e o Candomblé não poderiam ser consideradas religiões por não se basearem em um “livro sagrado”. Depois, tal decisão foi, neste aspecto, retificada. Menos mal… Afinal, o Brasil é um Estado laico! E não cabe a nenhum dos seus Poderes— ou a qualquer pessoa, associação ou instituição— praticar, disseminar ou consentir em atos de discriminação religiosa, pois assim dispõe a Constituição Federal (artigos 3º, incisos I a IV, e 5º, inciso VI).

Ora, em nosso país, a Umbanda e o Candomblé são duas destacadas religiões, com grande número de fiéis seguidores e outro tanto de simpatizantes. Entre si, elas são religiões distintas, com fundamentos próprios; embora apresentem alguns pontos comuns (como a crença no Deus Único, o Culto aos Sagrados Orixás, a prática mediúnica).

A pergunta é: cabe num livro todo caminho de religação do homem com Deus? Ou isso depende de critérios subjetivos e variáveis, tanto quanto varia a nossa capacidade individual de “sentir, pensar e interpretar” o Criador de tudo e de todos?
Porque as religiões cuidam, em síntese, de orientar o homem no caminho da sua religação com Deus— da sua religação com algo Maior, que dê propósito à existência carnal e a transcenda, unindo tudo e todos em torno da Única Energia Original: a Fonte da Vida, a quem podemos chamar de Deus, Olorum, Olodumare, Zâmbi, O Todo, O Incriado, O Olho que tudo Vê, etc.
A Umbanda e o Candomblé têm, entre os seus fundamentos, o Culto à Natureza.

Na Umbanda, entendemos por Natureza tudo quanto Deus Criou, em suma: todo o Universo, o micro e o macrocosmo, todas as formas de vida, inclusive a humana, mais os elementos (fogo, terra, ar, água, vegetais, minerais e cristais). Acreditamos que tudo é Deus, que tudo provém de Deus e que tudo volta para Deus, mediante os processos infinitos de transformação evolutiva pelos quais passam os elementos, os seres e as espécies. Daí que todos somos parte de imensa Fraternidade, apesar das diferenças individuais que nos distinguem. E se tudo isso coubesse num livro, quão colossal ele teria de ser, para falar da Obra do Criador?
Quantas páginas seriam necessárias para se falar do Infinito Amor de Deus e da Sua Onipresença na Criação? E da Sua Onisciência? E da Sua Oniquerência? E da Sua Infinita Perfeição, em todos os aspectos imagináveis e inimagináveis, uma vez que somos ainda aprendizes nos primeiros passos de perceber e sentir a Criação como um Todo inseparável?

E quantas para se falar da riqueza energética dos elementos, bem como de todas as formas de vida que compõem a intrincada cadeia alimentar? Quantas para se falar da importância de nos situarmos em meio à Grandeza da Criação, procurando agir com dignidade e respeito perante tudo o que nos rodeia e alimenta?
E quantas para se falar do valor da contribuição ética, moral e cultural que recebemos dos nossos ancestrais homenageados pelo Astral Superior quando da criação da religião de Umbanda, como os nativos (“indígenas”) e mais aqueles de outros continentes, com destaque para os africanos, os europeus e os orientais?
Quantas páginas, ainda, para nos fazer entender que Somos Um, e que é pura insanidade cultivar um olhar de separação, diante do Infinito Amor que preside e une e preserva a Criação?
Isso, para começar…

Não, livro nenhum feito por mãos humanas seria capaz de conter tudo isso!

Por isso, a Umbanda e o Candomblé, entre outros princípios e fundamentos, se sustentam no Culto à Natureza. O seu livro-base é a Natureza, como reflexo do Poder Criador! Como a nos dizer: vamos contemplar e honrar a Manifestação do Pai-Mãe da Criação em todos os seres e em todas as coisas por Ele Criadas. Essa contemplação nos fará compreender e, mais que isso, nos fará sentir a Vida Maior pulsando em tudo e em todos; e nos convidando para uma convivência harmoniosa, fraterna e pacífica. Eis que, a nos unir e a nos impulsionar ao progresso em todos os aspectos, Está — e sempre Esteve e Estará — a Mente Criadora, Infinitamente Perfeita e Amorosa. Não temos palavras para descrever tal Obra! Não temos palavras para interpretá-La! Apuremos, então, os nossos sentidos, para percebê-La e Dela haurir forças, no empenho de nos tornarmos melhores, dia após dia! Enquanto isso, vamos orar e vigiar.
Orar, especialmente, por aqueles que ainda insistem em separação, buscando sintonia com a Fonte da Vida, que é Puro Amor. Pois somente esse Amor será capaz de nos libertar dos sentidos inferiores. E vigiar, para não cairmos na tentação de nos julgarmos superiores a nada e a ninguém. Porque somos tal como folhas da mesma (e Única) Árvore da Vida; cada folha ocupando um lugar igualmente Sagrado desse Espaço-Tempo; e todas de igual valor e importância para o Criador — embora cada uma, isoladamente, só possa enxergar parte da Grande Árvore…

Texto de Maria de Fátima Gonçalves publicado no Jornal de Umbanda Sagrada de junho de 2014.

Para ver o jornal acesse:

 
 
 

 

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